terça-feira, 8 de abril de 2014

A identidade sonora da paisagem





Cachoeira do Poço, Ecoparque Sperry, Canela RS.
Quando no planeta Terra ainda não existia nenhuma forma de vida vagando pelas águas, terras ou ar, os únicos sons que existiam eram os próprios da natureza, como o trovão, o vento açoitando rochas, a água debatendo-se em seu caminho nas margens e cachoeiras, os vulcões vomitando as entranhas da terra e as ondas do mar quebrando nas praias. Estes eram os sons que identificavam as paisagens da terra ancestral, chamados tecnicamente por Bernie Krause de geofonias, ou os sons da terra.

Rio Silveira em São José dos Ausentes RS.
Por volta de uns seiscentos milhões de anos atrás, começaram surgir as primeiras formas de vida nas águas rasas dos oceanos e daí em diante apareceram sempre novas espécies que começaram povoar as águas, as terra emersas e o ar. Cada nova forma que surgia tinha que criar mecanismos de comunicação para se relacionar com os seus parentes e com o mundo ao seu redor, podendo esta comunicação ser química, tátil ou sonora, criando-se assim cheiros, cores e sons próprios. Assim, ao longo dos milênios, a evolução foi criando uma verdadeira orquestra de milhares de instrumentos compostos pelos sons, timbres e melodias que cada espécie desenvolveu para se manter vivo, conhecer os perigos do ambiente, encontrar alimento e reconhecer parceiro para acasalamento. Assim foi surgindo, lenta e progressivamente, um segundo grupo de sons, estes produzidos pelos seres vivos, e que são denominados genericamente de biofonias (bio = vida e fonia = som).
Os animais aprenderam o significado dos sons do ambiente onde viviam e passaram a utilizá-los para seu benefício, além de criarem, cada um a seu modo e necessidade, sua própria identidade sonora. Acredita-se que a música com toda sua complexidade de timbres, como conhecemos hoje, de alguma forma evoluiu de sons que copiamos de algum ritmo natural ou manifestações sonoras da natureza e de outros animais.


Cânon Monte Negro em São José dos Ausentes RS.
Seguidamente me posiciono no campo ou dentro da mata e fico escutando os sons locais e vejo que eles variam com a hora do dia, a estação do ano e com o clima. Cada floresta, campo, banhado, rio, montanha ou deserto tem seus sons próprios e ouvi-los é um exercício altamente relaxante. Esta mistura de sons geofônicos e biofônicos constituem sinfonias únicas, com identidade de lugar e tempo. São as chamadas identidades sonoras, ou identidades acústicas de um lugar. Assim como o som de um aglomerado urbano que mistura ruídos de veículos, pessoas, vozes, sirenes e músicas – chamados de antropofonias (antropos = relativo ao homem e fonia = som), na natureza existe o mesmo, apenas que mantendo sua proporção, fonte geradora e identidade. É possível assim reconhecer lugares apenas ouvido os sons ambientes do mesmo, um estudo relativamente novo e que implica equipamentos especializados de gravação e muito conhecimento de música para a interpretação. Mas é um mundo novo que se abre ao deleite do ouvinte atento e ao conhecimento do nosso planeta e dos seus habitantes, sempre se relacionando entre si e com o ambiente. Para os mais apaixonados pelo assunto, sugiro o livro A grande orquestra da natureza, de Bernie Krause. 

sexta-feira, 4 de abril de 2014

As dunas, a vegetação e a resilência






As dunas do nosso litoral, também conhecidas por cômoros, são aquelas pequenas elevações formadas de areias brancas que se acomodam entre o mar e as primeiras ruas e casas das praias do nosso retilíneo e tedioso litoral. Esta areia vem da praia, de dentro do mar e é empurrada para fora pela água. Na sequencia, o vento seca e empurra os grãos para o continente e vai acumulando em montículos que vão crescendo e se transformando em dunas. Quando o vento muda de direção, assopra a areia de volta para o mar e assim as dunas crescem e decrescem de tamanho, mudam sua forma e posição constituindo-se em verdadeiras montanhas moveis. Um dia aqui, outro invadindo ruas e casas (na verdade estes últimos é que invadiram o espaço delas), sempre ao sabor do vento.

Sobre estas dunas costeiras moveis existe uma vegetação que tem grande capacidade de sobreviver a estas mudanças constantes na forma e posição das areias. Um dia podem ser vistas espalhadas por cima da duna e pouco depois, enterradas alguns centímetros abaixo para logo mais estarem novamente no topo. Elas sofrem a pressão da areia, ficam no escuro, se deformam e assim que ficam livres, reconstituem sua forma e seguem a vida. Resiliência é a palavra que define esta capacidade que as plantas tem de sofrerem reveses constantes, se recuperarem e continuarem vivas. As plantas são assim permitindo que as comparemos com algumas situações da vida diária.
Quantas vezes somos soterrados por problemas aparentemente insolúveis e, de repente, a areia é soprada de cima de nós e o sol brilha novamente vindo com ele as soluções e a vida segue. Assim como uma planta das dunas é dobrada, amassada e coberta pelo peso da areia durante um tempo, ressurgindo depois, nós também somos submetidos a períodos de um aparente estado de impotência e opressão quando nada parece dar certo. Devemos aprender a ter a paciência e a resiliência das plantas de dunas, por que uma hora ou outra a areia vai sair de cima e vamos reassumir nossa postura anterior mais fortes e mais preparados para o próximo embate.


A resiliência é esta grande capacidade que nos foi dada para resistirmos a ações do meio ambiente e, por extensão, também das complexas relações sociais a que somos submetidos.  O que devemos fazer é aguardar o vento assoprar a areia e nos desenterrar para vermos que as soluções existem e chegam sempre na sua hora, assim como o vento na praia. A nossa areia são os nossos problemas diários que muitas vezes nos sufocam a ponto de acharmos que não sairemos mais debaixo deles. Mas sempre tem um vento para movê-los para outro lado, ou para cima de outros. Mesmo sabendo que eles vão voltar, temos um tempo para crescer e aprender, o que vai nos tornado mais fortes. Somos como plantas de dunas, vivendo em um mundo instável que constantemente nos submete a provações de todos os tipos, e neste cenário complexo resistem mais aqueles que compreendem isso e aguardam a próxima ventania de areia mais preparados.  

segunda-feira, 31 de março de 2014

Taipas de pedras



Uma taipa de pedras nada mais é do que uma cerca feita apenas com pedras empilhadas. Há cem, duzentos ou trezentos anos atrás, as taipas eram as cercas comuns nas fazendas e foram erguidas por negros escravos. Elas riscavam o chão dos campos e matas do Rio Grande do Sul parecendo longas serpentes que se estendiam pelo horizonte afora. Hoje há remanescentes destas obras em vários lugares, principalmente na região dos Campos de Cima da Serra, em municípios como São Francisco de Paula, Cambará do Sul e São José dos Ausentes no Rio Grande do Sul. Era por aí que passavam as tropas rumo a São Paulo e para facilitar a vida dos tropeiros, foram feitos verdadeiros corredores e currais de taipas. Muitos fragmentos destas obras podem ser vistos em São José dos Ausentes quando se vai ao Monte Negro, ponto mais alto do Rio Grande do Sul.


Curral de pedras em São José dos Ausentes avaliado em mais de 200 anos
Se observarmos bem uma taipa, podemos ver alguns detalhes curiosos. Ela tem a base mais larga do que o topo, tendo a forma de uma pirâmide, quando vista de topo. Esta forma anula ou reduz muito a ação da gravidade, evitando que a estrutura desmorone. Pedras maiores embaixo e o tamanho vai diminuindo em direção ao topo criando-se uma malha de pedras equilibradas e entrelaçadas como se elas se abraçassem para não cair. Encaixadas umas nas outras de maneira precisa, formam um quadro abstrato que pode ser visto ao longo de todo seu comprimento, já que não há uma pedra igual à outra. A cada metro quadrado de taipa, um padrão de formas, ranhuras, reentrâncias e saliências. Musgos, liquens e alguma gramínea fazem a composição de cores para compor o quadro. Na diversidade de formas e encaixes das pedras cria-se uma unidade que se torna sólida, longeva e imponente na paisagem.

O arame e o mourão de madeira ou pedra substituíram as taipas na medida em que estes materiais se tornaram mais disponíveis e baratos. O arame liso chegou ao Rio Grande do Sul a partir de 1870 e o arame farpado só aportou por aqui lá pelo ano de 1913, importado dos EUA, de onde surgiu em escala industrial em 1873. Hoje as taipas são ainda construídas, mais como elemento decorativo do que funcional. 

Antiga taipa divisor ade campos em Bom Jardim da Serra, SC

Em algumas fazendas serranas ainda é possível ver estes monumentos de pedra cumprindo ainda sua função de manter de um lado os bichos de criação e de outro os homens. A taipa também se tornou um um elemento que impedia a livre passagem de bichos nativos como o graxaim, lagarto-teiu, cutias, zorrilhos e tantos outros menores que passaram a ficar isolados. Separados uns dos outros por este muro, bichos e homens mantinham a ordem nas estâncias. Uns encerrados para engorda e abate e outros encerrados na lida campeira, que também não era nada fácil. Parece que as taipas separavam apenas quem ia morrer mais cedo, no caso gado, porcos e galinhas, dos homens que viviam um pouco mais, como que para honrar a construção das taipas que, estas sim, viam a todos nascerem e morrerem por incontáveis gerações. Quanta história poderia ser extraída da memória destas linhas de pedra que cortavam os campos e tudo viam sem poder interferir no rumo das coisas, a não ser demarcar os ambientes de cada um. Separar homens e animais como se fosse uma vingança surda, lenta e permanente das pedras que foram desenterradas e empilhadas expostas ao sol, chuva, geada e ventos sofrendo assim a lenta e derradeira morte pela erosão, transformando-se em areia e solo. A sina das taipas...

quinta-feira, 30 de maio de 2013

A estrada de madeira



A estrada de ferro que ligou Porto Alegre a Canela, inaugurada em 14 de agosto de 1924, trouxe um grande desenvolvimento para o município e a região. O nome “Estrada de ferro” é uma alusão aos trilhos de ferro que correm paralelos, como duas longas espinhas dorsais, assentados sobre dormentes de madeira, ou outro material. Estes apoios (dormentes) absorvem o peso do trem e permitem o deslocamento em segurança da composição de um ponto a outro. Ferro e madeira sempre andaram juntos nesta aventura de tornar o transporte mais eficiente, rápido e confiável. Durante décadas o trem veio e voltou, trouxe mercadorias e pessoas e levou madeiras e pessoas, fez história e trouxe o turismo para a região, levou e trouxe fortunas e ilusões. Uma grande conquista, enfim. O problema é que mataram o trem e toda a estrutura envolvida na sua logística em 11 de março de 1963, por coincidência, no mesmo ano em que John Kennedy foi assassinado e os Beatles surgiram para o mundo.


Centenas de dormentes de antigas linhas férreas hoje servem para diversos tipos de propósito decorativos e na indústria moveleira rústica.


O que pouca gente se dá conta é que a estrada de ferro era, na realidade, assentada sobre uma ESTRADA DE MADEIRA. Explico através de alguns dados: um dormente de madeira padrão - peça sobre a qual se assentam os trilhos, tem 2,00m de comprimento por 0,24m de largura por 0,16m de altura. Para completar 1km de estrada de ferro eram utilizados 1.600 dormentes. Este número de dormentes mede 3.200m se colocados em linha, um em frente do outro. Como em 1km de estrada tem dois trilhos, temos 2.000 metros de ferro e 3.200m de madeira. Para cada km de estrada de ferro, temos 1.200 metros de madeira a mais... Simplificando, se considerarmos a distância atual de Canela a Porto Alegre – 135km, foram necessários no mínimo 216.000 dormentes que, se enfileirados, fariam uma linha de Porto alegre a Florianópolis. Aí está uma das razões para a brusca diminuição das nossas florestas nos 30 primeiros anos do século passado. Não bastasse a madeira para assentar os trilhos, tinha que ter madeira ou carvão de madeira para abastecer o trem. Não foi em vão que o patrono da Agricultura do Rio Grande do Sul – Assis Brasil, preocupado com a demanda de dormentes no primeiro quarto do século 20, importou o eucalipto da Austrália, árvore de crescimento rápido e que produzia madeira dura, ideal para a produção destas peças.


                                           Foto: André Susin
Estrada de ferro sobre um estrada de madeira

O trem veio principalmente para escoar a produção de madeira serrada de araucária, que saía das inúmeras serrarias do nosso município e da região serrana.  Por este prisma, posso afirmar que o trem foi o maior responsável pelo desmatamento de nossa região, seja para fazer a “estrada de madeira”, seja para a queima para alimentar suas caldeiras, ou para levar embora a madeira nobre da araucária. Quantas árvores de madeira nobre “desceram” ao chão para o trem poder subir a serra! Tudo tem um preço. O custo ambiental do trem foi alto porque criou um impacto muito forte e reduziu as nossas florestas e, para piorar ainda mais, tudo foi abandonado menos de 50 anos depois, mais ou menos o tempo que uma araucária leva para chegar a sua maturidade. Mais forte que o ferro do trem é a madeira das florestas, porque o primeiro está reduzido a uma máquina e dois vagões em visível estado de decomposição na antiga estação no centro de Canela. Já as florestas resistem bem ou mal, aqui ou ali onde lhes é permitido ficar, como que a mostrar que a sua força e maior do que as efêmeras construções humanas. De uma forma ou de outra, a natureza sempre prevalece.

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Dia de chuva


Dia de chuva no Sítio Pangaré, no Vale do Quilombo em Canela RS

Amanheceu batendo água. O dia custou um pouco mais para clarear e o chimarrão saiu um pouco mais tarde. A cama parecia ter cola e as cobertas queriam me amarrar a ela. Saí para a área da frente da casa e vi o chão todo molhado, apesar do beiral que faz a extensão do telhado. Foi uma chuva ”tocada a vento” com se fala.
Com o chimarrão na mão, da minha área fiquei observando a fauna. Parece que apenas a espécie humana não curte se molhar nestes dias. Absolutamente indiferentes à chuva que caía, um bando de rolinha-roxa disputava alimentos no gramado, junto com canários-da-terra. Os tico-ticos e suiriris ficavam aguardando os cupins de asa saírem do chão, para caçá-los no ar. Chuva? Que chuva, a fome é maior e as aves são indiferentes ao fenômeno. Eu, na área evitando me molhar. Fui para o outro lado da casa, que dá para o pomar. Lá o sanhaçu-cinzento, a saíra-preciosa, o tucano-do-bico-verde e alguns sabiás-laranjeira escolhiam os caquis maduros. Chuva? Que chuva, alimentar-se é mais importante. 

Chuva intensa no Ecoparque Sperry em fevereiro de 2013

As aves impermeabilizam suas penas com um óleo que produzem  numa glândula na base da cauda (uropigial), conhecida popularmente como “sobre”, e assim ficam como se  estivessem com uma capa de chuva.
Olhando para o morro do laje de Pedra, vi que subia uma coluna de cerração em direção a zona urbana de Canela. Daqui do Vale do Quilombo é possível ver a formação deste fenômeno natural que tanto aborrece os moradores de Canela e Gramado.  Neste local, 400 metros abaixo do centro de Canela, a cerração fica acima de mim, deixando os transtornos de visibilidade quase zero lá para o centro da cidade.
A chuva mansa continuou pelo dia todo e parecia que a terra agradecia absorvendo o líquido de forma lenta e silenciosa e devolvendo a gentileza através das plantas que crescem com vigor e trazem sustento para a fauna. O excesso de água rola pelos declives e vai se juntar a algum arroio próximo, como um complexo sistema de veias de um grande organismo que acaba levando o líquido para o oceano. O mar é o verdadeiro coração do planeta que recebe a água dos rios e a devolve sob a forma de chuva aos continetes.
O peso das gotas vai encharcando folhas e troncos fazendo com que os galhos se projetem para baixo, como que se quisessem tocar o solo ou se curvando em agradecimento pelo precioso líquido que estão recebendo. Um pouco de vento e o peso dos galhos é aliviado pela expulsão do excesso de água, fazendo parecer que está chovendo mais forte.

Cachoeira da Usina cheia após uma chuva forte (Ecoparque Sperry)

O brilho das folhas em dia de chuva é mais pálido e discreto do que quando o sol está brilhando, talvez como uma deferência ao astro rei que traz a energia necessária para a base da vida na terra – a luz, que junto com a água e o carbono, permitem a produção de alimentos e energia (fotossíntese), vital a toda a vida no planeta. Sol e chuva vão dando as regras para a vida e, visto assim, a chuva é tão boa e necessária quanto o sol. Portanto, dia de chuva é bom, basta mudarmos nosso ponto de vista. Devíamos tomar mais banhos de chuva porque faz muito bem e nos aproxima mais da natureza. 

Um sanhaçu-cinzento comendo banana durante chuva forte.

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Outono, período de mudanças.



Caquizeiro


Chegou o outono, estação de muitas mudanças na natureza e nas pessoas. Vivemos no paralelo 29 graus de latitude sul, bem abaixo do equador (hemisfério austral) onde, durante todo o ano, os dias e as noites tem exatamente a mesma duração. Aqui sentimos a duração dos dias e noites mudarem conforme mudam as estações. O outono é uma estação sempre aguardada devido à progressiva diminuição das temperaturas, a chegada da época de pinhão e a mudança de cores da paisagem.

Ginkgo biloba

As folhas de muitas árvores, como o plátano, caquizeiro, liquidambar, Acer e ginkgo iniciam um lento e irreversível processo de morte que transforma a paisagem num grande palco natural onde mutações cromáticas se exibem como num desfile estático, para o deleite das pessoas. Este processo natural é uma adaptação destas plantas a um frio que se aproxima e a uma estação com menos horas de luz solar. Aos primeiros sinais da nova estação, como o encurtamento do dia, muitas árvores param de produzir clorofila (pigmento verde) nas folhas. Isto determina a interrupção da produção de nutrientes (fotossíntese) e elas começam morrer. Daí inicia o desfile de cores que se inicia com o amarelo e segue para o laranja, vermelho e, finalmente, marrom. 




Caquizeiro

Simultaneamente a este processo, a planta produz e acumula um ácido (abscísico) na base do pecíolo (haste que prende a folha ao galho) que mata as células do local e as folhas acabam caindo, num compasso ditado pelo vento e pela gravidade, e vão forrando o chão do local como um tapete multicolorido.
Olho agora para um caquizeiro pela minha janela e já vejo este processo em curso. O chão começa ficar coberto de folhas alaranjadas e marrons e os frutos tornam-se mais visíveis devido à diminuição das folhas. Mesmo que todas estas espécies sejam exóticas (provenientes de outras regiões geográficas), a beleza do fenômeno encanta as pessoas e sinaliza as mudanças em curso.


Acer sp

Figurativamente, o outono da vida de uma pessoa é aquele período em que ela entra na velhice e aguarda pelo seu inverno – o seu ocaso natural, esperando que não seja muito rigoroso. No nosso calendário o outono dura apenas três meses, mas no calendário figurado da nossa vida ele pode durar muitos anos e ser bem interessante. Aos 61 anos já estou no meu outono, mas o meu inverno, espero, está ainda muito longe e me sinto ainda no verão, com energia e disposição para seguir trabalhando, escrevendo e interpretando a natureza, este elemento que me intriga, inebria, complementa e me alimenta a alma. 

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

O ouriço-cacheiro





Vou me solidarizar com um animal que é mais conhecido pelo que causa aos nossos cães do que ele propriamente dito. Trata-se do ouriço-cacheiro, também conhecido como porco-espinho (Coendou villosus). Sempre lemos notícias ou ouvimos comentários de que um ouriço atacou um cão e o encheu de espinhos.

Primeiro que o ouriço não ataca, uma vez que é um roedor lento, não agressivo e que vive em cima das árvores (arborícola). O que acontece é que na cidade as matas são poucas,  resumindo-se a algum quintal ou praça arborizada. Como o ouriço alimenta-se de folhas e frutos, ele tem que estar constantemente em busca de seu alimento andando de árvore em árvore. Nas matas de grande porte, ele raramente desce ao solo deslocando-se sempre de galho em galho, como os bugios e macacos-prego. Com as árvores longes umas das outras, na cidade, ele obriga-se a descer ao solo para passar de uma para outra. Pois é neste momento que os nossos cães entram na história. Como o que não falta na cidade é cachorro, logo algum vai farejar o pobre e lento roedor e instintivamente tenta mordê-lo. Rápida e dolorosamente, aprende que este é um bicho a ser deixado em paz. 

Deste ponto em diante, só se fala no cão que algumas vezes morre devido ao grande número de espinhos que entram na sua pele e até na boca.  Poucos são os que se preocupam com o pobre do ouriço, um roedor nativo das Américas Central  e do Sul e que apenas tenta sobreviver nas zonas urbanas mais arborizadas. 

Raros são os que se salvam, e a perda não é lamentada. Devíamos pensar um pouco na eliminação progressiva e quase inevitável que os nossos cães e gatos domésticos promovem sobre a fauna nativa. Gatos e cães são animais não nativos da América (são exóticos) e se, fora de controle, podem trazer sérios prejuízos à fauna local. Manter nossos animais domésticos bem tratados e cercados, impedidos de predarem pequenas aves (gatos) ou ouriços, é uma obrigação mínima dos donos.

Um brinde ao ouriço-cacheiro, valente sobrevivente das nossas já escassas florestas.